segunda-feira, 28 de março de 2011

Feliz Dia do Revisor de Textos

Para quem não sabe, sou revisora de textos, e hoje é o meu dia! Se professores, advogados, médicos e outros profissionais têm os seus dias para comemorar, porque nós, revisores, também não podemos ter?

Desde a época da faculdade, sonhava em ser revisora de textos, e hoje sou realizada profissionalmente graças a misericórdia do Senhor.

Somos mais de 8.000 profissionais espalhados pelo Brasil. Se este número é pequeno, não sei. O que importa mesmo é comemorar mais um ano de leituras, e mais leituras, e mais leituras...

Nesta data tão especial para mim, somente com um texto que descreve a minha profissão, não é?

Quem mexeu no meu texto?! 


“Tal como o goleiro no futebol, o revisor, na editora, é aquele que evita o pior (o gol adversário, o erro de digitação, a escorregada gramatical, a incoerência que ninguém percebeu etc.).

No entanto, é também o revisor quem mais sofre com as derrotas de um texto. Ele é o último homem (ou a última mulher) a ler o livro antes da fase de impressão gráfica, quando não há retorno…

Monteiro Lobato dizia que a tarefa do revisor era das mais ingratas. Que o erro ou a falha se escondiam durante o processo de confecção do livro para, depois de tudo pronto, aparecer na primeira página aberta, como um saci danado, pulando, debochando do revisor.

O revisor é um caçador de distrações. Uma de suas maiores alegrias (em que há uma pitada de vaidade) é encontrar deslizes do autor, perceber as gralhas que ninguém viu antes, corrigir detalhes que iam passar despercebidos.

O revisor revisa com amor.

O revisor sai de manhã, caneta em punho, em busca de verbos mal conjugados e vírgulas fugitivas.

O revisor revisa com dor.

O revisor chega em casa, à noite, com o coração cheio de parágrafos amputados e tópicos frasais remendados.

O revisor revisa com ardor.

O revisor enfrenta moinhos de vento que de fato moem o vento de palavras que o vento não leva.

Madrugadas insones, manhãs e tardes quentes, noites chuvosas, o revisor vai pulando as linhas e entrelinhas do texto em busca das ciladas armadas sabe Deus por quem.

O revisor entrega o seu trabalho bem suado e abençoado. Recebe as moedas de prata que são, na verdade, moedas de ouro. Recolhe seus instrumentos de caça, enxuga o rosto, sorri. Sabendo que o autor poderá reclamar de suas intervenções, que poderá referir-se ao revisor, gritando: quem mexeu no meu texto?!

O mérito da frase perfeita é do autor.

O crime do erro cometido será do revisor.

O revisor, porém, não se considera um injustiçado. O revisor vitimista abandonou a profissão no primeiro dia. O verdadeiro revisor, como o goleiro no futebol, sabe que nasceu para ficar ali, na pior posição de todas, para agarrar centenas de bolas difíceis e, talvez, deixar passar a mais fácil de todas.

Oços do ofíssio.”

Gabriel Perissé, escritor.

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